O Brasil moralista e as mulheres que merecem apanhar
Nunca se esqueça: a culpa não é da vítima
Escrito por Daniele Barros
Como sempre a nossa internet nos dando belos exemplos de como nossa sociedade ainda não evoluiu em alguns pensamentos retrógrados. Uma das notícias mais comentadas nos últimos dias foi a separação do cantor Naldo de sua esposa Ellen Cardoso, após a mesma denunciá-lo por agressão e admitir que vinha sofrendo com esse fato há muitos anos. Boa parte das pessoas entenderam a gravidade da situação e enviaram a Ellen mensagens de apoio. Mas, o costume de culpabilizar a vítima pelo crime continua firme e forte na mentalidade das pessoas, principalmente das próprias mulheres.
É absurdo, mas muitas mulheres julgaram o ocorrido com Ellen como um acontecimento merecido, afinal, ela já mantinha um relacionamento com Naldo antes de ele se separar de sua antiga esposa (anulando assim completamente a culpa dele por ter feito o mesmo). Pessoas com esse tipo de julgamento são as mesmas que culpam a mulher e suas vestimentas quando ela é vítima de estupro, são as que culpam o negro quando ele é confundido com bandido por andar de chinelo e cabelo black, que culpam a menina de 12 anos por ser assediada pelo pai afinal, “ela anda de short curto em casa”. Achar que o oprimido é culpado pela opressão que sofre simplesmente por ele ser quem ele é não faz o menor sentido a ponto de ser uma afirmação quase que imoral.
Comentário no Instagram de Ellen Cardoso
Comentário no Instagram de Ellen Cardoso
Quando o assunto é violência contra mulher e o julgamento vem de outras mulheres se torna mais absurdo ainda tentar justificar o injustificável. “Mas se foram tantos anos de agressão, porque aguentou tanto tempo? Ah já sei, gostava do dinheiro dele.” É sempre importante repetir que, mulheres que são agredidas passam por uma grande pressão psicológica, que muitas vezes, as impedem de denunciar. Muitas dependem financeiramente do marido e, em caso de romper com relacionamento, não teriam como sair de casa com os filhos, ou simplesmente tem vergonha de denunciar, afinal, sabemos que vivemos em uma sociedade moralista onde até mesmo a denúncia se torna motivo para questionamentos sociais. Agora imagina todos esses medos e ainda por cima ser uma pessoa pública! A vida não é tão simples como parece e a palavra mágica, sororidade, é sempre bem vinda.
Nenhuma de nós está livre de, amanhã ou depois, se envolver em um relacionamento abusivo. Por mais empoderadas que sejamos as circunstâncias da vida mudam e podem muito bem nos colocar em uma posição desta na qual é difícil sair. Portanto não julguemos nossas semelhantes. Vamos nos unir em busca de uma sociedade menos machista para nossas futuras gerações, porque a nossa talvez não dê tempo de usufruir deste tão sonhado mundo.


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