A transição de Ludmilla: O resgate da estética perdida e sua influência
Escrito por Daniele Barros
Nós sempre falamos aqui da importância da existência de modelos positivos com os quais possamos nos espelhar ou nos inspirar e, quando o assunto é a estética negra, esses modelos, ainda que já tenham crescido em números, ainda são bem poucos. Quando surge alguém, sobretudo com grande influência na mídia, que torna sua imagem uma referência a ser seguida, sobretudo quando esta referência reflete uma minoria, esta atitude deve ser elogiada e contemplada.
Há alguns meses atrás a cantora Ludmilla anunciou que estaria passando pelo processo de transição capilar que consiste em retirar toda química transformadora do cabelo e passar a utilizá-lo de forma natural. Durante o processo a cantora foi alvo de algumas críticas por não mostrar como estava seu cabelo e por optar em utilizar perucas, as chamadas Full Laces (perucas com acabamentos especiais quase imperceptíveis). Pois bem, como os fãs esperavam a cantora apresentou dia 1 de dezembro, na capa da revista Cosmopolitan, seu novo visual com os cabelos naturais.
O processo de transição capilar não é uma novidade no Brasil. Nos últimos dois anos assumir os cachos ou os fios crespos foi a meta de diversas mulheres de várias faixas etárias que se cansaram da escravidão das químicas de transformação capilar, que além de caras, as deixavam escravas de um padrão liso europeu totalmente fora da realidade de nosso país onde boa parte da população é negra. Exemplos a seguir no YouTube é o que não falta. São inúmeras as blogueiras que levam até suas seguidoras palavras de autoestima, motivação, incentivos e dicas de como cuidar e tratar dos cabelos crespos e cacheados. Bom, mas, se exemplos hoje não faltam, não seria a Ludmilla só mais um?
Capa da Revista Cosmopolitan de dezembro
Se para nós, meros mortais, ultrapassar a barreira das críticas, julgamentos e opiniões de familiares e amigos sobre nossa aparência é difícil imagine uma pessoa negra, famosa que passa por julgamentos de um país inteiro. Não parece fácil. O processo de transição capilar é difícil, pois a mulher tem somente duas opções: passar um longo tempo com o cabelo com duas texturas diferentes (a natural e a alisada) ou optar por fazer o big chop (que consiste em cortar toda a parte alisada e deixar o cabelo crescer do zero). Para uma artista que precisa está sempre “apresentável” é um desafio e tanto.
Para algumas pessoas a cantora resolveu assumir seus cabelos naturais não por uma questão social de auto-aceitação, mas por uma parceria feita com uma empresa de cosméticos no qual se tornou embaixadora. Mas acreditamos que a questão mais importante aqui não seja a motivação de Ludmilla, mas o exemplo e o incentivo que ela trás auxiliando muitas meninas negras na busca por sua identidade.
“Alisava meu cabelo desde os 7 anos. Quando eu era pequena, estudava em escola particular e todo mundo tinha cabelo liso. O meu era o único cabelo diferente, crespo. E eu, que queria ter o cabelo igual ao delas, ficava passando formol na cabeça”,
Ludmilla em entrevista para a Revista Cosmopolitan
A estética negra ainda não é a mais valorizada no Brasil, claro que a realidade está mudando, mas anos e anos de subalternidade não se superará da noite para o dia. O cabelo étnico, sobretudo os crespos que não formam cachos, ainda são associados a sujeira, resquícios do mal ensino da história dos negros e da escravidão nas nossas escolas. Trazer de volta os cabelos crespos e cacheados é além de um ato político, um importante resgate da cultura e da memória de nossos ancestrais que foram se perdendo com o embranquecimento forçado a que fomos apresentados. Portanto, seja qual for a motivação, que venham mais Ludmillas ajudar a romper este padrão estético e a construir desde cedo a autoestima de nossas mulheres - e homens também, claro.


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