Quem exatamente você era aos 15?
Como enfrentar as situações machistas e constrangedoras da mesma forma que Maisa
Por Daniele Barros
Maisa é uma menina que sempre me surpreendeu desde que ela era criancinha e aparecia naquele programa do SBT, o Bom dia e Cia. Sua espontaneidade de falar o que pensava e fugir do script do programa era, além de divertido, muito surpreendente para uma criança tão pequena. Mas agora que ela é uma adolescente me surpreende ainda mais.
Quando eu tinha a idade que ela tem hoje, 15 anos, eu não tinha nem a metade da “sagacidade” e do pensamento social analítico que Maisa tem. Minha geração só foi conhecer a internet depois de adulta, por volta dos 20 anos, e acredito que isso tenha influenciado muito na diferença de pensamento entre as gerações. O acesso aos mais variados conteúdos tornam os jovens de hoje muito mais informados o que ajuda na construção social e visão de mundo que eles virão a ter. Claro que nada disso funciona se não houver uma base familiar que saiba orientar e conduzir o pensamento desse jovem e isso a família da Maisa soube fazer muito bem.
Pois bem, todos devem lembrar do desagradável episódio ocorrido em um programa do SBT onde Silvio Santos sugeriu que a jovem de 15 anos namorasse o apresentador Dudu Camargo, de 19. Mesmo Maisa dizendo que não estava gostando da brincadeira Silvio Santos insistiu em continuar. Na época, a atitude de Maisa de ser contra as gracinhas de Silvio e de não aceitar passivamente a brincadeira desagradável, foi criticada por muitas pessoas nas Rede Sociais e até mesmo por famosos como Sônia Abraão que fez questão em dedicar boa parte de seu programa na RedeTv! para abordar o assunto recebendo, inclusive, Dudu Camargo como estrela principal.
Mas, como em raros momentos nesse país, desta vez a justiça teve uma atitude coerente, justa e a altura do ocorrido. De acordo com a Folha de São Paulo, o SBT foi condenado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT-SP) a pagar R$ 10 milhões de indenização por "danos morais coletivos" pela provocação à apresentadora Maisa Silva. Veja, não foi Maisa nem sua família que processou a emissora, o próprio Ministério Público enxergou o absurdo misógino ocorrido e tomou esta atitude o que para nós, que lutamos por um mundo mais respeitoso e igualitário para as mulheres, é uma imensa vitória. Que essa seja uma porta que se abre para que a sociedade, que em boa parte ainda encara os direitos da mulher como ‘’mi mi mi” (como eu odeio este termo!), passe a tentar enxergar de outra forma ou na pior das hipóteses, pense duas vezes antes de desmerecer situações como esta.
Na época do ocorrido Maisa deixou em suas redes o seguinte depoimento:
"Minha apresentação no Programa Silvio Santos, do último domingo, está sendo motivo de questionamento e ataques nas redes sociais. Isso é comum, pois vivemos em uma sociedade onde a mulher muitas vezes não tem voz e precisa lutar com situações constrangedoras e brincadeirinhas todos os dias". Quando uma menina de 15 anos não aceita qualquer brincadeira ou comentário, e se posiciona, causa espanto", "Estamos aqui para trazer reflexão: até quando as mulheres vão viver precisando aceitar tudo? Não, é não!".
A resposta de Maisa serve para que nós, mulheres adultas, possamos refletir sobre as situações que enfrentamos no nosso dia a dia seja no trabalho, no relacionamento com amigos, em locais públicos. Muitas de nós nos vemos constrangidas em diversas situações misóginas onde podemos responder ou ter atitudes que sejam à altura do constrangimento que nos foi oferecido, mas, por vergonha, medo ou até mesmo comodismo, passamos por cima de tudo e tentamos seguir a vida. O problema é que esses casos nunca são isolados e muitas dessas situações já fazem parte da rotina de muitas mulheres e com o passar do tempo caem na normalidade.
Somos muito e muitas para sofrermos, em alguns casos, durante uma vida inteira, com humilhações às vezes disfarçadas em forma de gracinhas tão enraizadas em nossa sociedade. Nunca é tarde para mudarmos a realidade e a Maisa no auge de sua juventude e na infantilidade de sua adolescência está fazendo isso. E você, vai fazer o que?


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