Que tal ser um pouco mais Alicia?

setembro 19, 2017

Durante o Rock in Rio, Alicia Keys deu um show de auto-estima ao subir no palco sem maquiagem


Foto: Fábio Tito/G1

Por Daniele Barros

Domingo, assistindo ao show da Alicia Keys no terceiro dia do Rock in Rio pela TV, fiquei admirada pela coragem desta artista. Já há algum tempo ela havia comentado em várias entrevistas a sua decisão de não fazer mais uso de maquiagens (ou de usar somente quando quisesse), e que deixaria de seguir este padrão pois, estava cansada de “esconder” quem ela realmente é fisicamente por meras convenções impostas pela sociedade patriarcal às mulheres. Só por esta afirmação ela já mereceu todo o meu respeito. Mas quando a vi ontem em sua apresentação meu encantamento se tornou ainda maior. Ela não só cumpre o que prega e se mostra de cara limpa, como não tem vergonha - e não tem que ter mesmo - de vestir suas curvas, que são consideradas avantajadas, em um lindo macacão justo e cheio de brilhos. E tudo isso esbanjando plenitude e muito convicta de si.


Mas aí você pensa: “Mas ela é famosa né! Pode tudo”. Mas se pensarmos bem, não funciona assim. Se nós, meras mortais, resolvêssemos ser somente nós mesmas de vez em quando e saíssemos de cara limpa, não usássemos cinta para apertar a barriga e vestíssemos aquele vestido justinho mesmo assim ou colocássemos um biquíni mais curto ligando o “tô nem aí para as estrias”, com certeza seríamos julgadas talvez pelo nosso companheiro, por uma tia, uma vizinha ou até por um desconhecido que se sentisse no direito de opinar. Agora imagine você ter os mesmos comportamentos e ser julgada por milhões de pessoas no mundo, recebendo várias críticas em suas redes sociais? Me parece infinitamente pior. Por isso artistas como a Alicia,  que usam sua influência para causas positivas, sobretudo causas feministas, enfrentando toda a pressão da grande mídia que praticamente as obrigam a estarem sempre bem, merecem o nosso respeito.



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Sem timidez a cantora mostra as estrias que tem no corpo em protesto contra a cultura dos padrões. (Foto: Reprodução/Instagram)


É sempre bom pensarmos um pouco mais nessas pequenas cobranças que nós mulheres nos fazemos no dia a dia, que são pequenas sim, mas nos consomem tempo e várias visitas desnecessárias ao espelho em busca de nos transformar em algo que não somos. “Mas espera, quer dizer que daqui para frente devemos abandonar a maquiagem”? Claro que não e acredito que essa não seja a mensagem que Alicia Keys pretende passar com suas atitudes e seus discursos. O importante é que você faça a si mesma alguns questionamentos: Acordar mais cedo para se maquiar antes do trabalho é algo que você faz porque gosta ou você seria mais feliz se usasse este tempo para dormir um pouco mais?

Comprar um maiô é bom porque cobre as estrias ou no fundo você prefere o biquíni mas tem vergonha de usar? A escova progressiva é legal porque te traz praticidade ou encarar os olhares e críticas por ter um cabelo natural é difícil demais? Fazer dieta é bom por questões de saúde ou no fundo, você acha que nem precisa dela, mas faz porque quer ser parecida com sua amiga que veste 38?

Nos aceitar como somos não é, por exemplo,  ser obesa mórbida e achar bom,  é ter consciência de si, de seu valor e a partir daí, se necessário, optar por mudar e não fazê-lo por mera convenção social.



“Escrevi uma lista de coisas que eu estava cansada. E uma delas foi o quanto as mulheres sofrem lavagem cerebral para serem magras, sensuais, desejáveis ou perfeitas. Estava cansada do constante julgamento das mulheres, o constante estereótipo que nos faz sentir que o tamanho normal, não é normal, e Deus nos livre se você for plus-size”
Alicia Keys em entrevista para revista Fault (2016)





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Em suas postagens Alicia Keys sempre busca fazer críticas a padrões socialmente impostos. (Foto: Reprodução/Instagram)

E tudo começa quando deixamos de julgar o próximo e passamos a olhar para nós mesmas. Claro que isso não é simples, nós fomos criadas em um meio em que a cobrança por uma aparência socialmente aceitável sempre foi uma palavra de ordem. São muitos anos de opressão social e de padrões pré-fabricados que, automaticamente, nos transformaram em opressoras de nós mesmas. Se você já está em outra fase e se  considera uma mulher bem resolvida, ótimo. Use então sua experiência para dar força para aquelas que ainda tem dificuldades.  Podemos começar com coisas simples: Vamos nos desconstruir! Você já deve ter ouvido que “mulher se arruma para outra mulher” , vamos vencer esta rivalidade feminina construída socialmente. Vamos seguir o exemplo acima da Alicia, e vamos empoderar nossas semelhantes. Sororidade é importante.  Elogie sua amiga, uma conhecida, uma vizinha.  Diga a ela o quanto ela está bem hoje, ou confronte as ideias auto depreciadoras dela. Para muitas mulheres isso é importantíssimo e talvez seja o ponta pé inicial para que ela comece a se ver de outra forma e a se cobrar menos fisicamente.


Vale a pena de vez em quando, depois daquele banho gostoso, dar uma olhada para você no espelho e se auto admirar,  porque o cabelo pode estar perfeito, a maquiagem impecável, a roupa extraordinária, mas, se não estivermos plenas, em sintonia com nós mesmas e desligadas de opiniões alheias, nada disso é importante. Ame-se!

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