Marvel, Pantera Negra e a sutileza de uma boa representatividade
Para ilustrar nosso texto eu vou começar contando à vocês uma breve história. Eu, mulher, negra fui criada em uma comunidade aqui do Rio muito conhecida nos telejornais pela violência e pelo tráfico de drogas. Minha mãe e minha avó me criaram com todo o zelo existente no mundo e sempre tentaram me manter fora da realidade do local onde morávamos. As dificuldades financeiras eram muitas e em algumas vezes para que não faltasse alimento à mesa, minha avó se sujeitava a pedir alimentos "fiado", para pagar na semana seguinte de modo que nada faltasse para mim. Numa dessas vezes em que ela precisou recorrer a ajuda de um comerciante da região, dono de uma venda, eu estava com presente e deveria ter por volta dos meus 5 anos de idade. O comerciante não só negou seu pedido de ajuda como utilizou de seu momento de superioridade para humilhá-la e "colocá-la em seu lugar" de necessitada. Citei este fato pois, a partir daí, sempre busquei exemplos de negros que tivessem uma outra realidade diferente da nossa, que vivessem num mundo mais colorido, sem tantas privações.
Em minha infância, que se deu em meados da década de 90, a internet era uma realidade praticamente inexistente sobretudo para a população mais pobre. Com isso, eu tinha nas novelas do Vale a Pena Ver de Novo e nos filmes da Sessão da Tarde o mundo de fantasia que buscava para mim. Me lembro dos filmes "Corina, uma babá perfeita" e "Uma história americana" com a maravilhosa Whoopi Goldberg, que apesar de serem excelentes produções, retratavam a realidade do negro como ela era e não como a minha cabeça de criança gostaria que fosse.
Lembro-me da primeira vez que assisti "O Guarda Costas" com Whitney Houston, de como meus olhos brilhavam ao olhar para aquela belíssima mulher em uma posição social favorável. Sempre que este filme era reprisado, eu, minha mãe e minha avó parávamos para assisti-lo, mesmo ele não sendo o supra sumo das produções hollywoodianas porque, na verdade, o que estava em jogo ali era uma coisa muito maior, o desejo de nos ver sendo algo mais do que éramos.
Hoje celebro a felicidade de ter a oportunidade de ver um produção como "Pantera Negra" estrear com tantas críticas positivas. Confesso que fui assisti-lo com algumas ressalvas, já que, filmes de heróis, definitivamente, não são os meus favoritos. Muito além da representatividade importantíssima oferecida, sobretudo às crianças negras, "Pantera Negra" é um filme sério e político com delicados toques de humor que aborda o racismo de uma forma incrivelmente sutil em suas entrelinhas. Para completar o que já estava perfeito, o longa também acerta em cheio ao oferecer total empoderamento às mulheres através do "girl power" do exército de mulheres da guarda real lideradas pela atriz Danai Gurira com sua personagem Okoye. As cenas de batalha das guerreiras deixam o filme ainda mais sensacional.
As atrizes Danai Gurira e Lupita Nyong'o em cenas do filme “Pantera Negra”. Imagens: Divulgação
Foram 33 anos de minha vida esperando por um filme que mostrasse tudo o que que eu gostaria de ver na minha infância, mas o tempo não volta e nem há como levar relíquias do futuro para o passado como em Dark (série da Netflix, assistam, vale a pena). Mas hoje, ao menos tenho a certeza que a "Sessão da tarde" dos meu filho ou filha está garantida.
Achou que teria sinopse né. Vá ao cinema conferir. Com surpresa é sempre melhor!



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