Era uma vez... Um país onde negro não podia falar de racismo
Escrito por Daniele Barros
Bom, todos nós já sabemos do caso de racismo sofrido semana passada com a filha de Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank, Titi. Foi um dos casos mais comentados nas redes sociais na semana passada e toda poderosa Rede Globo até fez uma entrevista com o casal que foi ao ar no Fantástico do domingo passado (03). Com o acontecido já bem explorado pela mídia não precisamos nem dizer o quanto absurdo este caso foi e que está claro que a tal blogueira Day McCarthy utilizou o casal e a criança para se promover, de forma bem negativa e preconceituosa.
Mas, o que mais me chamou atenção é que este não foi o único caso de racismo que repercutiu nas redes sociais nessas últimas semanas, e uma comparação entre os dois casos me pareceu muito pertinente. Um vídeo da Atriz Taís Araújo no evento TEDxSaoPaulo ocorrido em agosto deste ano e divulgado no final de novembro, no qual a atriz faz importantes colocações sobre como criar um filho negro em um país preconceituoso como o Brasil, deu origem a diversos memes que deslegitimizavam as palavras da atriz.
"Quando ele se tornar adolescente (atriz se referindo ao filho), ele não vai ter a liberdade de ir pra sua escola, pegar uma condução, pegar um ônibus, com seu boné, ou capuz, e seu andar adolescente sem correr o risco de levar uma investida violenta da polícia ao ser confundido com um bandido. No Brasil, a cor do meu filho é a cor que faz com que as pessoas mudem de calçada e blindem seus carros".
Taís Araújo em palestra da TEDxSaoPaulo 2017
Toda a reflexão feita pela atriz no vídeo intitulado “Como criar crianças doces num país ácido” que abordava o preconceito sofrido pela população negra, sobretudo crianças, e a forma de combater essa realidade e transformar o Brasil em um país mais igualitário, se tornou palco de comentários ofensivos. E o mais absurdo: Até Laerte Rimoli, presidente da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) fez parte do infeliz número de pessoas que compartilhou memes racistas da atriz em sua rede social.
Meme Compartilhado por Laerte Rimoli em sua rede social
Agora, veja bem como as coisas aconteceram de forma totalmente diferente com o ocorrido com o casal Global Bruno e Giovanna. Não precisa pesquisar muito para ver que toda solidariedade lhes fora oferecida, basta visitar o instagram de ambos para ler palavras de consolo e solidariedade. E onde estão essas palavras para Taís Araújo? Afinal o filho dela também sofreu racismo, não é mesmo? Seria cômico se não fosse ofensivo, mas no Brasil, o negro não tem voz de comando, lugar de fala e legitimidade nem para falar de sua própria realidade e quando tenta tomar a palavra para si é taxado de vitimista. Já a legitimidade de um casal branco que adotou uma filha negra e está “aprendendo” e sofrendo agora a dureza do preconceito é muito mais respeitada, ouvida, amada, entrevistada do que aquela que teve que se auto afirmar a vida toda para estar onde está.
Comentário em postagem feita pelo G1 sobre o caso de Taís Araújo
Comentário em postagem de Rede Social de Bruno Gagliasso
A questão aqui não é quem sofreu mais racismo ou não, racismo é racismo, não importa o grau. Este texto é só para mostrar como a hipocrisia faz com que nos afastemos cada vez mais de uma sociedade igualitária.
Em entrevista ao Fantástico Giovanna Ewbank disse uma frase, muito interessante: “Como pude eu ficar mais de 30 anos de minha vida sem essa consciência de que este problema (o racismo) era tão grave”. E seu esposo completou: “Como eu pude nunca fazer nada sobre isso esses anos todos?”. A resposta é simples: só quem vive a opressão tem a consciência do quanto ela dói e mata a autoestima dia a dia e somente esta pessoa pode ser porta-voz desta dor.


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