Não enrola. E daí? Respeita meu black

setembro 12, 2017
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Por Daniele Barros

Há uns meses atrás muitos sites divulgaram a notícia de que as buscas pelo termo “cabelo cacheado” no Google superaram as buscas por “cabelo liso”. As informações foram divulgadas pelo  próprio Google que noticiou ainda ter havido um crescimento de 232% na busca por “cabelos cacheados” no último ano. Dados como este podem ser considerados uma grande vitória a favor das mulheres e contra a padronização da beleza que sofremos na pele durante todo o tempo. Informações como esta nos dá força para que prossigamos com o discurso de empoderamento feminino e de autoaceitação para que a cada dia mais e mais mulheres amem a sua natureza.


Mas amigas, não seria tão fácil assim,  não é mesmo?  Anos e anos de opressão não seriam vencidos tão facilmente e essa revolução capilar ainda não é para todas. Junto com empoderamento dos cabelos cacheados veio também a ditadura do cacho perfeito e a negação e a opressão ao cabelo crespo. Sim, não vamos confundir: Cabelo crespo NÃO é cabelo cacheado. Os cabelos crespos socialmente aceitáveis são aqueles que, apesar de serem crespos, formam cachos e se assemelham mais aos cabelos cacheados. Já os cabelos crespos sem definição de cachos, que tem a aparência de serem mais ressecados, uma das principais características deste tipo de cabelo, esses ainda são criticados e tidos como descuidados, desleixados e feios.


Eu como mulher negra que vos escrevo e como dona de um cabelo crespo já passei por várias experiências desagradáveis, daquelas que você não espera e não sabe como dar uma resposta à altura. Meu cabelo é o crespo socialmente aceitável, então os elogios que recebo vem em número muito maior do que as críticas. Não é incomum que eu ouça o seguinte comentário “Nossa seu cabelo é lindo, mas tem umas meninas com uns black powers tão feios por aí, sem brilho, crespos. Esses eu acho horríveis”. E não foram poucas as vezes que eu tive o “prazer” de ouvir essa frase. Nas primeiras vezes eu me calei, dei um sorriso amarelo e pensei: “Eu respondo ou não? Afinal ela me elogiou” - Em todas as vezes os comentários vieram de outras mulheres. E hoje vejo como esse meu pensamento foi errado e egoísta, como esse tipo de “elogio” não acrescenta em nada e como é importante que nós mulheres negras não aceitemos nenhum tipo de opressão, mesmo que esta não nos atinja diretamente.


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A Youtuber Jacy July aborda assuntos como liberdade e aceitação para os cabelos crespos


A mulher que passa pela transição capilar (processo de retirada da química de transformação dos cabelos) quer voltar a ter os cabelos naturais, seja ele como for e muitas delas nem sequer lembram de como eles eram, já que, começaram a usar químicas de transformação nos cabelos ainda criança. É um grande e incrível processo de autoconhecimento, uma libertação tamanha que não merece encontrar juízes preconceituosos pelo caminho.


A luta pela aceitação e desmistificação da imagem do negro não é recente. No Partido Pantera Negras, mundialmente conhecido por suas lutas políticas contra o racismo nos Estados Unidos na década de 1960, as mulheres usavam propositalmente seus cabelos crespos não definidos e armados como instrumento de protesto e de empoderamento da estética negra. E lá se vão 50 anos e somente agora,  a duras penas, a realidade começa a ser reescrita, mas mesmo com todos os avanços, discursos positivos e aceitação do cabelo cacheado,  a estigmatização do cabelo crespo ainda é muito significativa.


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Angela Davis,  filósofa socialista  militante dos “Panteras Negras” pelos direitos das mulheres


Se você é uma crespa e está precisando de um incentivo para prosseguir, ou não é, mas quer entender um pouco mais sobre essa realidade, separei alguns vídeos importantes de influenciadoras crespas do Brasil que vale a pena assistir.

Confiram!








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