#MeuMotoristaAbusador: Por um futuro com menos hashtags

setembro 05, 2017



Por Daniele Barros

Ficar com medo de estar sozinha no ponto de ônibus à noite, andar em rua deserta olhando para trás para ver se alguém suspeito se aproxima, se achar linda em uma roupa mas não sair com ela porque não está afim de no mínimo ouvir  "gracinhas" desagradáveis, deixar de ir naquela festa por medo de voltar sozinha, não sentar no banco ao lado da janela do ônibus pois nunca se sabe quem vai sentar ao seu lado. Se você é mulher, nós temos certeza que pelo menos uma dessas afirmações já estiveram presentes na sua vida.
          
Quando as empresas de carros particulares, como Uber e Cabify, surgiram aqui no Brasil, nós, assim como outras mulheres, pensamos que poderia ser uma opção de transporte mais segura, uma preocupação a menos para o nosso dia a dia, já que, se tratava de empresas internacionais com padrões de qualidade mais sólidos e desta forma haveria um maior rigor ou maior controle das pessoas selecionadas para exercer a função de motorista. Desagradável engano! Nunca foi nenhuma novidade para nós sofrer assédio de motoristas de táxi, assédio em transportes públicos -  que não são resolvidos nem com a criação de vagões próprios para mulheres. Acabou como deveríamos prever, com essas empresas particulares de transporte ganhamos mais uma opção de insegurança, oba!

Em pouco mais de 1 ano de operação no Brasil já são inúmeros os casos de assédio praticados por motoristas de aplicativos, muitos são relatados, e outros guardados dentro da vítima misturadas ao medo e à vergonha. O pior desses abusos é que, além da violência em si,  esses homens têm acesso ao endereço, telefone e dados pessoais da vítima o que inibe muitas mulheres de denunciar com medo sofrer represálias ou vingança por parte do abusador.

O último e mais comentado caso de assédio foi o da Escritora Clara Averbuck, que após sofrer violência sexual por um motorista da Uber , criou a campanha  #MeuMotoristaAssediador e #MeuMotoristaAbusador que incentiva mulheres a não sofrerem sozinhas e a procurar por justiça em casos como o dela. Passeando pelas postagens tagueadas por essas hashtags, o que vemos são relatos que não nos deixam esquecer do perigo que é ser mulher e simplesmente precisar ir e vir.

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Nem precisamos citar o que o nosso tão amado machismo é o mecanismo que faz com que tantos homens assediem mulheres das mais variadas condições, desde mães com crianças de colo, grávidas e até adolescentes, o respeito não existe em nenhuma dessas condições.

O primeiro passo para vencermos essa doença, que priva nós mulheres de fazermos o mais simples que é ir e vir, começa por nós mesmas. Lutar contra o machismo não é somente empoderar as meninas. É nossa responsabilidade criar filhos homens longe dos estereótipos que a sociedade nos apresenta dia a dia. E não, isso não é tarefa fácil. Aprender que brincadeiras não tem gênero, a respeitar o corpo do outro, saber que tarefa doméstica é coisa de menino sim,  que sim meninos podem chorar e usar roupa rosa, fazer ballet, saber que a masculinidade não se mede através do número de namoradinhas que ele vai ter, tudo isso são pequenas sementes que nós mães ou futuras mães devemos semear dia após dia mesmo que o sistema teime em nos desafiar e ensinar aos nossos filhos de outra forma.

Frases do tipo: “Mais um macho na família ! Amarre as cabras porque os bodes estarão soltos!” Brincadeira que parece inocente que é repetida para muitos meninos, que não, não tem graça alguma, muito pelo contrário. Se formos analisar bem essa frase é simplesmente um símbolo da cultura do estupro. Libera os meninos a assediarem, avançarem, exercerem a função de predador, enquanto afirma que meninas que não estiverem protegidas, podem ser pegas por uma criatura com impulso sexual incontrolável. Com isso não é de se admirar que  a sociedade atual, diante de um caso de estupro ou assédio, coloque toda a culpa na vítima questionando sua postura e sua vestimenta, ao invés de se voltar contra o crime em si e seu único responsável, o estuprador. Sabemos que é difícil desenterrar raízes tão bem plantadas por anos de opressão, mas todas nós temos consciência de nossa capacidade como mães. Pensem nisso e mude já os hábitos por aí. Todas por um futuro em que não mais precisaremos de  hashtags de denúncias.

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