Feminicídio e a intromissão que pode salvar uma vida

agosto 29, 2017
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Por Daniele Barros

"Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher", com certeza você já deve ter ouvido este fatídico ditado em algum momento na sua vida. Na nossa infância nossos avós repetiam isso com muita naturalidade. Hoje, conseguimos ver com um pouco mais de clareza o quanto essas palavras são absurdas dentro de determinados contextos, mas, mais absurdo é saber que muitas pessoas ainda carregam em si esta premissa como verdadeira e muitas dessas pessoas são mulheres como nós.

Vamos aos fatos: A estudante de psicologia Gláucia Mercedes de Machado Camargo de 32 anos foi estrangulada e morta pelo namorado Marcelo Oliveira, de 36 anos no último domingo, 27 de agosto. Motivação do crime: Ciúme. Com mais esta morte, esta semana o estado de São Paulo contabilizou o assassinato de 5 mulheres, mais 5 vidas que ajudam a colocar o Brasil em 5º lugar no ranking de países com maior número de feminicídios do mundo, de acordo com informações da OMS (Organização Mundial da Saúde). Em apenas 10 anos (entre 2003 e 2013) houve um aumento de 54% no registro de mortes violentas de mulheres. O mais triste disso tudo é que a maior parte desses crimes são cometidos por familiares, parceiros e ex-parceiros dessas mulheres. Triste também saber que para muitos (a maioria deles homens), apesar de tantos dados estatísticos, feminicídio não existe.

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Vamos entender um pouco sobre isto que estamos lidando para podermos entender porque este ditado popular ("Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher") nos dias de hoje deve ser evitado ao máximo. Feminicídio é o assassinato de uma mulher pela condição de ela ser o que é, ou seja, mulher!  Normalmente os crimes são cometidos por motivos torpes frutos dos padrões machistas que exercem controle sobre nossas vidas até os dias de hoje como ciúme, ou pelo sentimento de perda de controle sobre a vida de sua esposa ou namorada ou filha que alguns homens nutrem. Em muitos dos casos o feminicídio é a última consequência, o ápice de uma violência (torturas físicas, sexuais ou psicológicas) que determinada mulher já vem sofrendo ao longo de sua vida ao lado do assassino.
O primeiro passo para ajudar uma mulher oprimida é “meter um pouco a sua colher”.

É de suma importância que nós mulheres não julguemos nossas semelhantes. Se você tiver alguma amiga, ou conhecida que sofra violência doméstica, seja verbal ou física, não se omita ou se cale e o mais importante: Não julgue-a. A mulher agredida muitas das vezes aceita esta situação não por ser uma pessoa fraca.  Existem outras condições muito mais profundas que podem estar envolvidas que acabam fazendo com que ela não consiga escapar desse ciclo de violência. Dependência emocional, que faz com que ela acredite que o companheiro vai mudar de comportamento, dependência financeira para a criação dos filhos, insegurança, ameaças, vergonha do que vão pensar,  todos esses fatores podem estar atormentando a cabeça desta mulher e fazendo com que ela se mantenha dentro deste relacionamento.

Cartaz ilustrativo do Governo em incentivo a denúncias de casos de violência contra mulher

Eu, que aqui vos escrevo, possuo uma grande amiga que é humilhada pelo marido com palavras duras, ofensas realmente pesadas e, que em boa parte das vezes, é feita por seu companheiro na presença de suas duas filhas pequenas que, obviamente, crescerão com a lembrança traumática de ter uma mãe humilhada pelo próprio pai dia após dia repetidamente. “Mas ele nunca bateu nela”: Este é o comentário que mais ouço ao comentar com outras amigas sobre sua condição. Ao meu ver, ser chamada de vagabunda, gorda, obesa, otária e ouvir comentários como “nenhum homem te quer assim, sua gorda idiota” já é mais que suficiente. Mas, como apanhar era o que faltava, agora nada mais falta, pois dia desses a encontrei na academia com braços e pulsos roxos e cheios de hematomas. Por isso não me calo!  Dia após dia até que a libertação chegue para ela eu repetirei dez mil vezes se necessário, o quão importante é sua vida e que há dentro dela a coragem de se libertar de tudo isso para finalmente começar a viver ou continuar vivendo. E se ela falhar e situações mais drásticas se aproximarem, não exitarei em denunciar.

Dizer que a vítima está passando por isso porque gosta, ou que ela merece isso por não ter coragem de denunciar não passa de mera reprodução do machismo e este jogo psicológico ao invés de ajudar pode oprimir ainda mais esta pessoa e evitar que ela tome uma atitude. E sim, se você tomar uma atitude por ela, muitas pessoas vão dizer para você não se intrometer, que o problema não é seu ou vão te dizer: "Depois eles fazem as pazes e você vira a inimiga". Aí manas, eu vos digo: Nada como deitar a sua cabeça no travesseiro e saber que você fez a sua parte. Meta a sua colher, o seu garfo, o que você achar que deve. Mais vale uma vida salva do que qualquer frase pronta que dite as regras de nossas vidas.


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